História da Nação Latino Americana 3ª edição, Editora Insular

R$99,00

História da Nação Latino Americana 3ª edição
[24x17cm]

História da Nação Latino Americana 3ª edição
Autor: Jorge Abelardo Ramos

ISBN: 978-85-7474-552-7
Páginas: 584
Peso: 993g
Ano: 2014
Tradutores: Marcelo Hipólito López, Maria de Fátima Jardim

Foto da capa: James Rodriguez

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Trata-se de uma obra inédita, já que Jorge Abelardo Ramos modificou esta última edição para agregar-lhe novos textos e apreciações sobre a América Latina. A morte o surpreendeu em pleno trabalho criativo e de investigação.
Neste livro nos encontramos com a grande aventura da colonização, a emancipação e as revoluções nacionais. A tragédia da América Latina em sua fragmentação em vinte Estados débeis e impotentes, submetidos ao grande poder imperial.
Ainda que a bibliografia sobre a deformação econômica produzida pelo imperialismo seja enorme na América Latina, ainda não existia uma obra – nem antiga nem contemporânea – que descrevesse o processo de “balcanização” sofrido pela herança hispano-crioula desde os tempos de San Martín e Bolívar até a revolução dos tempos atuais, cujos nomes simbólicos são Juan Domingos Perón, Fidel Castro, Velazco Alvarado, Salvador Allende, Omar Torrijos, Getúlio Vargas e muitos outros.
Como nasceram como Repúblicas províncias como o Uruguai, Venezuela, Bolívia, Paraguai, Argentina e Equador? Como a oligarquia agrária exportadora fuzilou ou expatriou os unificadores (Bolívar, San Martín, Morazán, Artigas)? Como o pensamento marxista, o nacionalismo e o liberalismo alteraram sua natureza ao atravessarem o Atlântico e converterem-se nas mãos do poder oligárquico em produtos opostos ao seu significado natural? Finalmente, a Guerra das Malvinas e um epílogo – a pedido de Alberto Methol Ferré – onde publicamos uma conferência magistral que sintetiza seu pensamento revolucionário e unificador.
Tais são os temas tratados pelo autor, lançando uma luz poderosa sobre a história e o destino de nossos povos.

Victor Ramos

Obras do autor:

América Latina, um país (1949)
Historia Política del Ejército Argentino (1949)
Crisis y resurrección de la literatura argentina (1954)
De Octubre a Septiembre (1959)
Manuel Ugarte y la revolución latinoamericana (1961)
El Partido Comunista en la política argentina (1962)
Historia política del ejercito argentino (1964)
Ejército y semicolonia (1968)
Historia de la nación latinoamericana (1968)
El marxismo de Indias (1973)
Adiós al Coronel (1983)
Revolución e Contrarrevolución em la Argentina (1983)
Adiós al coronel (1983)
Introducción a la América Criolla (1985)
Breve historia de las izquierdas em la Argentina (1990)
La Nación Inconclusa (1993)

América Latina Esquizofrenizada pelo Imperialismo Angloiano

Por Gilberto Vasconcellos

O Brasil está precisando de um safanão da América Latina para deixar de ser bobão, e tomar vergonha na cara. Pela primeira vez editado no português, 40 anos de atraso, o argentino Jorge Abelardo Ramos, A História da nação latino-americana. A editora Insular de Floripa está de parabéns.
Este livro tem a mesma importância que a História da Revolução Russa, de Leon Trotsky, de quem Abelardo Ramos assimilou as ideias e estilos. Lembra também na capacidade desveladora do presente para o passado, o historiador português Oliveira Martins.
Realço o estilo porque Abelardo Ramos foi um exímio escritor que se iguala aos melhores romancistas latino-americanos. Escrevia movido por um sentimento épico, lírico e iracundo, com uma visão de conjunto da América Latina, somente comparável ao mestre Darcy Ribeiro, de quem foi amigo em Lima e Montevidéu.
Para ler a coluna completa e outras matérias confira edição de outubro da revista Caros Amigos, já nas bancas, ou clique aqui e compre a versão digital da Caros Amigos.

Apresentação

Jorge Coscia

Secretário de Cultura da Nação Argentina

A apresentação de História da Nação Latino-americana, de Jorge Abelardo Ramos, ao público do Brasil é o cumprimento de um objetivo por muitos anos adiado e que, por fim, pode tornar-se realidade.
Pertenço a uma geração argentina que encontrou nesta obra – assim como na intensa atividade política e literária de seu autor – o sentido e a explicação deste continente e dos mais de quinhentos anos de luta, às vezes vitoriosa e às vezes desafortunada, pela soberania, pela liberdade, pela dignidade e pelo bem-estar de nossos povos.
Descobrir, aos vinte anos, a natureza continental de nossas guerras pela Independência, a unidade que brotava de nosso passado e se projetava necessariamente em nosso futuro, o grande projeto de San Martín, Bolívar, O’Higgins, Artigas e Abreu de Lima partido em dezenas de fragmentos insignificantes, foi um acontecimento espiritual que marcou para sempre nosso pensamento e nosso compromisso político. Aprendemos, no momento de iniciar nosso ingresso na política, que o principal objetivo dessa atividade devia ser a restauração, nas condições de nossa época, daquela unidade perdida depois da batalha de Ayacucho.
Neste livro, minha geração começou a compreender, na Argentina, a história e as particularidades de nosso vizinho, o Brasil, que, ao contrário do resto do continente, não sofrera o flagelo da balcanização. Longe disso, ele havia mantido uma singular unidade estatal, não isenta de guerras civis, que dominou seu extenso território.
A ideia central expressa no próprio título do livro é que a América Latina é uma nação, no mesmo sentido em que Fichte falava da Nação Alemã ou Napoleão da Nação Francesa. Isso implica que cada um de nossos pequenos países – em comparação com o gigantesco projeto – são peças de um enorme mosaico que já começamos a construir. O Brasil e a Argentina constituem, no pensamento geopolítico de Juan Domingo Perón e no truncado projeto de Getúlio Vargas, a pedra angular capaz de sustentar o conjunto do edifício. A América espanhola e a América portuguesa são, em certo sentido, os herdeiros do pensamento do Conde Duque de Olivares que, por mais de sessenta anos, sustentou a unidade da Península Ibérica e, portanto, do Novo Mundo.
Tiveram que transcorrer mais de quarenta anos para que a obra de Jorge Abelardo Ramos, de muitas vendas na Argentina dos anos 70, chegasse à terra do Barão do Rio Branco, da mesma forma como a obra e o pensamento de Darcy Ribeiro, Helio Jaguaribe ou Luiz Alberto Moniz Bandeira apenas nos últimos anos começaram a transpor a débil barreira que separa o português do espanhol.
E isso foi possível porque, por sorte ou por obra de nossos povos, muitas das ideias propostas neste livro começaram a tornar-se realidade. O Mercosul e a Unasul iniciaram uma revelação de sua potencialidade integradora. Pela primeira vez, desde os tempos da Grande Colômbia, nós sul-americanos estamos nos dando estruturas políticas e econômicas autônomas, sem que a presença dos Estados Unidos interfira em nossas decisões soberanas.
Se o Centenário argentino, em 1910, foi a apoteose de nossa fragmentação e debilidade, o Bicentenário de nossa Revolução de Maio é o reinício dessa unidade perdida. Esta História da Nação Latino-americana nos oferece chaves essenciais para fortalecer e consolidar esse processo, que deve ser irreversível. A sobrevivência de nossos povos, de nossa singular cultura formada por aportes de todos os lugares do mundo, de nossas matérias-primas e de nossos trabalhadores industriais, é o que está em jogo. Jorge Abelardo Ramos soube ver isso há quarenta anos e, seguramente, essa visão ajudará nosso mútuo entendimento e colaboração.
Buenos Aires, 13 de janeiro de 2011


Prefácio

América Latina: o lugar do novo

Waldir José Rampinelli

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina
e doutor em Ciências Sociais e Políticas pela
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

A América Latina é hoje o lugar do novo. O nacionalismo, que assume características revolucionárias em vários países, desencadeou um amplo processo de mudança por meio de um novo constitucionalismo. Temas como, por exemplo, a democracia, a economia, a diplomacia, a cultura e a história, cujos conceitos e conteúdos sempre foram impostos pelas ideologias eurocêntrica e pan-americana, estão sendo duramente questionados em certas partes de nosso continente e, em alguns países, superados. As novas constituições, discutidas e votadas pelo povo por meio de processos constituintes, já incorporaram em seus artigos a plurinacionalidade, a pluriculturalidade, a plurietnicidade, o poder popular, a justiça comunitária, a defesa das riquezas nacionais a serviço de suas populações e, uma delas, a boliviana, adotou outro modo de produção – o ayllu – que não o capitalista clássico. É a refundação do Estado plurinacional com uma descolonização da mente e uma redescoberta da própria história. Isso preocupa tanto o Departamento de Estado, em Washington, que o Documento de Santa Fé II, uma estratégia para a América Latina para a década de 1990 já dizia que “o matrimônio do comunismo com o nacionalismo na América Latina representa o maior perigo para a região e os interesses dos Estados Unidos”.
Depois de trezentos anos de colonialismo, seguidos de duzentos de neocolonialismo, que serviram para transferir nosso excedente econômico às metrópoles e para aprofundar a ideologia de que “raças superiores” fazem história, enquanto que as inferiores carecem dela, o nacionalismo revolucionário pode significar o começo do fim dessa dominação e a busca por uma igualdade racial, ou seja, o banimento da colônia que continuou vivendo na República, como dizia José Martí.
O novo, hoje, na América Latina poderá nos levar mais longe: à superação, também, da colonialidade. Enquanto o colonialismo foi uma subjugação externa, a colonialidade é uma classificação social interna, cujas oportunidades são distribuídas a partir de determinados critérios, de condições étnicas e raciais. É a imposição por parte da burguesia, sócia menor dos países imperialistas, de uma ideologia eurocêntrica e pan-americana, ou seja, uma visão europeia-estadunidense de modernidade conservadora, que nega os conhecimentos, os saberes, as tecnologias e as religiões das sociedades originárias. Nesse contexto de colonialidade, a indígena boliviana, ao ascender socialmente, reunia as amigas em cerimônia para cortar suas longas tranças, tentando se libertar do preconceito e da opressão do homem branco. Hoje já não o faz, pois sente os direitos de sua indigenidade assegurados pela Constituição que ela mesma votou. É a valoração do ser índio, ou seja, a passagem da escova da história “a contrapelo”, na concepção de Walter Benjamin, para dar voz e vez àqueles “que sofreram, trabalharam, definharam e morreram sem ter a possibilidade de descrever seus sofrimentos (Michelet)”; para compreender plenamente as condutas políticas e sociais dos grupos superiores que se esmeram em ocultar a presença ativa dos subalternos; para iluminar uma profunda e extensa parte do passado que permaneceu escondida por determinação de uma classe dominante; para clarear o presente e ajudar a construir um novo futuro.
Por outro lado, a América Latina sempre foi o lugar do novo. Os povos que se estabeleceram nesta região há cerca de 30 mil anos mantiveram uma continuidade cultural que tornou possível o surgimento e o desenvolvimento de uma civilização própria, fato único na história da humanidade, que se manifesta da seguinte maneira: a) as nações dispunham de um sistema de organização que desconheciam as formas de subjugação trazidas pelo capitalismo, tais como a dominação cultural e a imposição de um modo de produção que gerou a fome; b) os astecas, quando submetiam seus vizinhos para cobrar-lhes tributos, respeitavam integralmente os seus usos e costumes e a falta de alimento se dava apenas por conta das intempéries da natureza, como a estiagem ou as cheias, nunca por carência de um planejamento, tanto que a civilização meso-americana surgiu como resultado da invenção da agricultura, sendo o cultivo do milho a sua grande invenção; c) o idioma, o ato de dominar lugares e a cultura foram mecanismos utilizados pelos indígenas na defesa de sua identidade.
Por sua vez, a primeira guerrilha de resistência e ataque, comandada pelo cacique Enriquillo, aconteceu nas montanhas da Ilha Hispaniola contra a expedição de Cristóvão Colombo; os fundamentos iniciais da Teologia da Libertação, formulados por Frei Bartolomeu de Las Casas, foram postos em prática na região de Chiapas e tinham o claro objetivo de defender os direitos dos povos indígenas e de denunciar seu genocídio; o primeiro movimento pré-nacionalista surgiu com Tupac Amaru, em Cuzco, e Tupac Catari, em La Paz reivindicando a abolição das formas compulsórias de trabalho e o fim da exploração dos Corregedores e insurgindo-se contra as reformas “burbônicas”, às quais eram guiadas por ideias iluministas de racionalização e centralização da administração europeia; o início das rebeliões populares, protagonizadas pelos negros escravizados, se deu em várias regiões do continente, espalhando-se como um rastilho de pólvora e materializando-se na primeira colônia a se tornar independente na América Latina, o Haiti. Foi a pátria de Toussaint Louverture a protagonista da política internacional mais avançada das Américas, já que 1) cooperou com a independência dos Estados Unidos ao derrotar as tropas de Napoleão Bonaparte, de passagem pelo Haiti, rumo à reconquista da Luisiânia, na América do Norte; 2) apoiou com homens, víveres, naves e armas a Simón Bolívar, permitindo-lhe, desse modo, regressar da Jamaica à Venezuela com uma nova expedição militar, para prosseguir em sua luta pelas independências das colônias hispânicas, exigindo-lhe, em contrapartida, o solene compromisso de abolir a escravidão no exato momento em que pisasse terra firme na América do Sul; e 3) negou-se a participar da Conferência de Washington, a primeira tentativa de se estabelecer uma zona de livre-comércio em toda a América, pois os Estados Unidos, saídos de sua Guerra Civil, com a vitória dos monopólios do Norte sobre os escravistas do Sul, estavam em franca formação imperialista e pretendiam apropriar-se não só dos mercados latino-americanos, mas também da península estratégica de São Nicolau, no Haiti.
A América profunda e o nacionalismo independentista de ontem, aliados ao nacionalismo revolucionário de hoje, podem abrir caminho para uma perspectiva internacionalista. Os marxistas, em geral, têm subestimado a questão nacional, assim como a importância da libertação nacional para os povos dominados, mantendo uma predisposição para o esquecimento, quando não para a desvalorização das formas de opressão que não sejam as de classe. No entanto, cabe lembrar que as duas revoluções socialistas acontecidas na América Latina – a cubana (1959) e a nicaraguense (1979) – começaram com um programa nacionalista e anti-imperialista, como o de José Martí, denunciando a ideologia colonizadora do pan-americanismo durante o processo de independência de Cuba, assim como o de Augusto Calderón Sandino lutando contra a ocupação estrangeira para construir um Estado nacional na Nicarágua.
Noam Chomsky diz que a América Latina é hoje o lugar mais estimulante do mundo. Pela primeira vez em 500 anos, existem movimentos rumo a uma verdadeira independência e a uma separação do mundo real. Países que historicamente estiveram divididos começam a se integrar, sendo essa união um pré-requisito para a verdadeira independência. Historicamente, os Estados Unidos derrubavam um governo após o outro; agora já não podem mais fazê-lo. Isso é o nacionalismo revolucionário, cujas raízes se encontram na história da resistência de ontem e se concretizam no avanço do nacional-popular de hoje. Estes são, portanto, tempos de ira e não de esperança, diz Adolfo Gilly. Enquanto a esperança convida a esperar, a ira obriga a se organizar.


O livro de Jorge Abelardo Ramos História da Nação Latino-americana, cuja primeira edição apareceu em abril de 1968, mostra exatamente o ontem para compreender o hoje, dentro de uma perspectiva da questão do nacional e do marxismo. A história, como as outras ciências, será sempre incompleta se não ajudar as pessoas a viver melhor. Ela tem obrigação de trabalhar em favor dos homens e das mulheres, já que os homens e as mulheres são o objeto primeiro de seu estudo. Por isso, Marc Bloch procurava “compreender o presente pelo passado” e ao mesmo tempo entender “o passado pelo presente”. Dessa maneira, abre-se uma perspectiva para o futuro. Esta visão ativa da história é compartilhada em diversos modos e contextos intelectuais por pessoas como Walter Benjamin, Antonio Gramsci, Carlo Ginzburg, Ranajit Guha, Laurence Sterne e Bronislaw Malinowski. É o que faz Jorge Abelardo no seu valioso trabalho citado acima, não sendo ele apenas um historiador, mas também um homem do seu tempo, parecendo-se – como diz o provérbio árabe – muito mais com sua época que com seus genitores. Por isso, três linhas fundamentais perpassam a obra de Ramos: o marxismo, o peronismo e o antimitrismo.

Na História da Nação Latino-americana, o autor mostra como um “sistema mundial”, que é o capitalismo, avança sobre a América Latina, levado pelos conquistadores espanhóis e portugueses, capitaneados pela Inglaterra e auxiliados por Holanda e França. O fato de a Espanha e Portugal terem chegado primeiro à América, longe de robustecer a influência sobre suas burguesias nas metrópoles, pelo contrário, dificultou a possibilidade de se liquidarem as instituições de suas arcaicas sociedades, de exorcizar os particularismos feudais e de estabelecer um sistema capitalista avançado na Península Ibérica e em seus territórios ultramarinos ao nível dos tempos modernos, ou seja, do capitalismo inglês. Na realidade, o século XVI pôs frente a frente uma Espanha na qual se vivia um “feudalismo apodrecido” mesclado com um “capitalismo débil” contra “um conjunto incoerente de sociedades, tribos e grupos étnicos”, cujas expressões mais complexas deviam levar em conta combinações de despotismo oriental com modalidades produtivas mais primitivas, ou seja, exemplos do “modo de produção asiática”. Por isso, Espanha e Portugal converteram-se em intermediários perniciosos entre as riquezas extraídas das colônias e o domínio de Londres. Para Ramos, o capitalismo nacional não triunfou plenamente na América Latina, já que sua principal característica ainda é o semicolonialismo. Daí seu apoio aos movimentos nacionais populares com orientação industrializadora.
As guerras civis pela independência, também chamadas de revoluções, incorporaram os indígenas, os gauchos, os negros e os mestiços, dando ao conflito um “caráter verdadeiramente popular”. Daí o autor falar em “luta de classes na independência”. No entanto, uma vez vitoriosa a contenda, as “classes perigosas” foram relegadas a um plano inferior, isto é, subalternizadas. Dois objetivos eram buscados por esses movimentos armados: 1) impedir que a América hispânica recaísse sob o jugo absolutista da metrópole e 2) conservar a unidade política do sistema de vice-reinado sob a forma de uma Confederação dos novos grandes Estados. Coube a Simón Bolívar, na Carta da Jamaica, dar uma formulação categórica ao segundo ponto, conhecido como a “Pátria Grande”, ao dizer que “é uma ideia grandiosa pretender formar de todo o Mundo Novo uma só nação, com um só vínculo que ligue suas partes entre si e com o todo. Já que o Mundo Novo tem uma origem, uma língua, costumes comuns e uma religião, deveria, por conseguinte, ter um só governo que confederasse os diferentes Estados a serem formados; mas isso não é possível, porque climas remotos, situações diversas, interesses opostos, caracteres dissímiles dividem a América. Que belo que o Istmo do Panamá fosse para nós o que o de Corinto é para os gregos!”.
A autoconsciência da nação inconclusa é a denominação dada pelo autor à ruína do plano bolivariano, implementada pelas oligarquias regionais – as mesmas que haviam abastecido os exércitos dos libertadores com homens e recursos –, tornando-se, posteriormente, contrárias à unificação, quando o livre-comércio já estava garantido. As oligarquias atuaram como forças centrífugas, não permitindo a formação de um Estado nacional autóctone e, por sua vez, provocando um processo de balcanização, que no plano cultural revigora o desconhecimento recíproco de que padecem ainda hoje os revolucionários latino-americanos. Os projetos, conservador e liberal, que vão marcar a política do século XIX na América Latina, são altamente elitistas e dependentes da hegemonia inglesa. Para Jorge Abelardo Ramos, “a vitória final só será possível com a Confederação de todos os Estados latino-americanos. Porém, essa estratégia, que lança suas raízes no mais profundo de nossa história comum, tem um nome moderno: socialismo; e designa um problema: a questão nacional”.
Para Ramos, a razão fundamental dos grandes problemas latino-americanos está no fato de que a revolução da independência não cristalizou a unidade nacional do subcontinente. Andrés Kozel*, estudioso da obra de Jorge Abelardo, afirma que a explicação para o fracasso do projeto unificador inicial deve ser buscado na “tremenda desproporção entre uma superestrutura ideológico-jurídica (a projetada por Bolívar) e uma infraestrutura econômico-social reduzida, escravista e semisservil, controlada por latifundiários, proprietários de escravos, depositários e exportadores de matérias-primas (tabaco, café, algodão, couros, anil etc.), isolados entre si e vinculados por separado com o mercado mundial. Irremediavelmente localistas e ligados estreitamente aos interesses das potências proto-imperialistas (especialmente Grã-Bretanha), estes setores buscaram em cada caso estabelecer tarifas alfandegárias específicas e regimes políticos ligados a seus privilégios, contribuindo assim de maneira decisiva para o processo de fragmentação. Em cada oligarquia regional Ramos parece estar vendo a oligarquia do porto de Buenos Aires: Santander, Páez, Olañeta e tantos outros são figuras semelhantes a Rivadavia...”.
O processo de formação do mercado mundial, juntamente com o ciclo de expansão do capital central, incorporou regiões da América Latina ao seu raio de ação, especialmente partes de alguns países que ofereciam matérias-primas que lhes interessavam para o processo de acumulação, preparando, desse modo, o caminho para as rupturas. As grandes greves de operários, mineiros, ferroviários e camponeses por melhorias salariais, laborais e organizacionais foram reprimidas violentamente pelos exércitos das oligarquias, com o apoio do capitalismo internacional. A greve dos trabalhadores de Cananea (México-1906), a dos mineiros de Iquique (Chile-1907), a dos operários de Río Blanco (México-1907), a dos ferroviários de São Luís Potosí (México-1907) e a dos camponeses bananeiros de Tegucigalpa (Honduras-1954) são apenas alguns dos exemplos mais conhecidos de um verdadeiro massacre. Cidades essas doloridas até hoje, já que foram “alisadas pelo silêncio e pela morte”, nas palavras de Julio Cortázar. Não por acaso, os mineiros chilenos disseram a Pablo Neruda: “aonde fores, fala destes tormentos, fala tu, irmão, de teu irmão que vive embaixo, no inferno”, mesmo sendo o “Chile, Metal e Céu”. Apesar de tudo, as greves do México foram os movimentos precursores da Revolução Mexicana, sendo a de Cananea contada pelo muralista David Alfaro Siqueiros; a do Chile abriu caminho para a “República Socialista” de 1932 – liderada por Marmaduque Grove –, concretizada no governo marxista de Salvador Allende em 1970 e imortalizada em Hijo del Salitre, por Volodia Teitelboim; a de Honduras deu na constituição do Código do Trabalho, em uma região em que a empresa multinacional United Fruit Company atuava como um Estado dentro de outro.
Jorge Abelardo Ramos e Adolfo Gilly, ao analisarem a Revolução Mexicana, concordam que os “focos de civilização” e o desenvolvimento desarmonioso do capitalismo geraram grandes contradições internas no país, levando-o a um processo de radicalização. As estradas de ferro, símbolos da modernidade conservadora, construídas com o objetivo de escoar uma economia primário-exportadora para o mercado internacional, trouxeram de volta sobre os trilhos os soldados camponeses indígenas de Villa e Zapata. A Mexicana foi a primeira revolução social do século XX, marcada por um caráter agrarista, nacionalista, anti-imperialista e, inclusive, anticapitalista, provocada por um acelerado desenvolvimento desigual do capitalismo. Para a América Latina, a Revolução Mexicana é o que foi a Francesa para a Europa, com toda a sua ambiguidade, mas também com suas promessas. Afinal, a hegemonia da oligarquia foi substituída pela da burguesia agrária, depois de vencer a camponesa, marcando o início da época contemporânea na região. No entanto não se pode esquecer que esta Revolução, mais que a Porfirio Díaz, derrotou a Emiliano Zapata. O México profundo (indígena, civilização meso-americana), segundo Guillermo Bonfil Batalla, vem enfrentando há 500 anos o México imaginário (ocidental, civilização europeia). Embora os dois, por razões diversas e próprias, tenham participado do conflito de 1910, coube ao segundo se utilizar da estratégia da mestiçagem, com base na teoria do indigenismo, para manter os povos originários em uma posição de subalternidade na história do século XX.
Jorge Abelardo Ramos, neste livro, analisa a história da nação latino-americana dentro da perspectiva da revolução, da luta de classes e do socialismo, aliando esses conceitos com o bolivarianismo, com a questão nacional e com o marxismo. A América Latina, nessa grande marcha por sua emancipação, só poderá avançar sob os auspícios do projeto bolivariano e da bandeira do marxismo. “Impõe-se reunir Marx com Bolívar”, ou seja, um “marxismo bolivariano”, latino-americanizando o marxismo e marxistizando a América Latina. “Um século depois da publicação de O Capital, para os latino-americanos Bolívar e Marx já não poderão estar separados por força alguma.” Ramos chega a afirmar que “expor as razões de tão curiosa fusão foi o propósito desta História da Nação Latino-americana.” Possivelmente, ele tenha sido o primeiro historiador a trabalhar estes dois conceitos em tão profunda conexão.
O exemplo vitorioso é a Revolução Cubana, que acaba de completar 50 anos. Fidel Castro sempre defendeu a concepção de revolução não como evento, mas sim como o resultado de um processo de longa duração. Perguntado por Ignácio Ramonet* quando começou a Revolução, respondeu que em 10 de outubro de 1868, início da Guerra dos Dez Anos contra o colonialismo espanhol. Preso e interrogado logo após o assalto ao quartel Moncada, disse que o autor intelectual daquela façanha havia sido José Martí, revolucionário cubano morto em 1895, em luta pela independência de Cuba. Portanto, não fora o Movimento 26 de Julho que criara as condições para desencadear o processo revolucionário, mas sim as circunstâncias históricas que marcaram a vida dos cubanos por mais de cem anos. Entre elas, o desenvolvimento de um capitalismo dependente, o mais avançado do Caribe e um dos mais progressistas da América Latina, caracterizado pelo impacto secular do colonialismo espanhol, seguido da exploração do imperialismo estadunidense. Daí a afirmação de Jorge Abelardo Ramos de que os revolucionários cubanos não participavam da concepção de Régis Debray de que os latino-americanos deveriam “livrar-se de seu passado”. Trata-se justamente do contrário, já que temos um grande passado histórico, com grandes lutas revolucionárias que precederam as atuais conquistas. “Não vamos renunciar a esse passado por ignorância nem por soberba.”
A emancipação deste continente reside, portanto, no conhecimento de sua história e na implementação de seu grande projeto, que é a formação dos “Estados Unidos Socialistas da América Latina”. É o que o autor faz ao longo deste grande trabalho.
No entanto, para que esta grande meta seja alcançada, a América Profunda precisa ser respeitada e aceita pela América Imaginária. Embora Ramos não tenha nenhuma idealização do passado pré-hispânico, cabe lembrar que uma nação etnicamente e culturalmente plural exige a superação e a anulação de toda estrutura de poder que implique a dominação de um grupo sobre o outro. É preciso aprender a ver o Ocidente desde a América, ao invés de continuar vendo a América desde o Ocidente. Sem a autonomia das comunidades indígenas e a recriação de estruturas sociais mais amplas – o Estado – que permitam a realização e a vivência de culturas originais reclusas, jamais se chegará a uma verdadeira emancipação do continente latino-americano.


A Editora Insular, com uma história de dezessete anos, traduz e publica uma obra que vai fazer escola entre os estudantes dos cursos de história, ciências sociais e políticas, sociologia, antropologia, serviço social, relações internacionais e economia, assim como interessará a qualquer pessoa ligada à nação latino-americana. Isso porque foi escrita por um Mestre. Sem dúvida, uma grande obra, para um grande público, feita por uma editora que marcará a história das publicações sobre a América Latina no Brasil.

[ 19.12.11 ] -

Um clássico latino-americano entre nós

Por Nildo Ouriques - Professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais e membro do IELA-UFSC.

A lenta e inexorável latino-americanização da cultura brasileira recebeu notável impulso com a publicação no Brasil da obra magna de Jorge Abelardo Ramos, História da nação latino-americana, iniciativa mais que oportuna da Editora Insular, de Florianópolis. El “colorado Ramos”, como era conhecido Jorge Abelardo, é um dos potentes intelectuais argentinos, membro de uma geração autodidata e portadora de enorme cultura e cativante estilo literário. Expulso da escola secundária por motivos políticos, nosso personagem ganhou o título de “notório saber” e terminou dando aulas de História na Faculdade de Filosofia da Universidade de Buenos Aires. Mas nunca foi um universitário no sentido comum, fato que lhe conferiu enorme vantagem. Suas obras seguem sendo publicadas no país vizinho e encontram na juventude terreno fértil de leitores curiosos pelo conhecimento desta inesgotável figura. Na mesma medida em que sua obra ainda mantém prestígio entre a juventude militante, é preciso também dizer que Abelardo Ramos recebeu tratamento de Estado quando em 2006 o congresso nacional editou no país vizinho cinco tomos com parte importante de sua vasta interpretação da vida argentina, lamentavelmente ainda desconhecida pelos intelectuais no Brasil e também praticamente inexistente para nosso mundo universitário. Há uma semana, na recente reunião da Comunidade de Estados Latino-Americanos (CELAC) realizada em Caracas, a presidente Cristina Kirchner presenteou Dona Dilma com um exemplar da edição brasileira da obra deste grande intelectual argentino. A gentileza da presidente Cristina é simbólica e sutil. É como se alguém indicasse a existência de uma bela rosa no seu jardim, até então, desconhecida por você.

Ninguém poderá estudar seriamente a América Latina sem devorar imediatamente este poderoso livro. Não estou seguro se existe outro com tamanha erudição, alcance e profundidade. História da nação latino-americana apareceu em 1968 e desde então não cessaram as edições em espanhol. No Brasil, muitas gerações ficaram marcadas pela leitura de As veias abertas da América Latina, do uruguaio Eduardo Galeano, livro que não deixa de ter importância ainda hoje para todo aquele que quer iniciar-se num certo caldo de cultura das idéias latino-americanas. Contudo, História da nação latino-americana tem outra extração, ambição distinta. É um livro que cobre 500 anos de história e nem por isso é vago; ao contrário, não somente revela a solidez autodidata de um grande intelectual argentino revalorizado numa conjuntura em que amplas massas se movem novamente na direção de fortalecer a identidade de nosso povo comum, mas, sobretudo, uma prova incontestável da qualidade dos estudos latino-americanos que começam a ganhar cidadania no Brasil. Enfim, o livro é uma prova irrefutável que aquele tempo no qual “estávamos de costas para América Latina” ficou, definitivamente, para trás.

Abelardo Ramos, legitimo representante do pensamento crítico latino-americano, conhecia profundamente a Europa. É obvio seu escancarado apreço pela Espanha, uma espécie de orgulho que também podemos encontrar no culto que grande parte da intelectualidade mexicana alimenta em relação ao que não sem ambigüidade carinhosa denominam “madre pátria”. Para nós brasileiros, sempre tão distantes de Portugal quanto ignorantes da história européia – embora aduladores de quase tudo o que de lá procede – não deixa de ser curioso observar Abelardo Ramos tratar a Espanha como “heróica” depois de vasculhar cada intriga do poder burguês e revelar todas as misérias de seus personagens mais importantes como quem comenta sobre os detalhes sórdidos da vida íntima de seus vizinhos mais próximos.

Trotskista desde sempre, conciliou a militância e o refinamento dos grandes intelectuais socialistas argentinos. Em 1973 conquistou um milhão de votos na disputa presidencial ocorrida naqueles turbulentos e maravilhosos anos que a Argentina viveu antes do golpe genocida de 1976 do qual todos nós ainda não nos recuperamos plenamente. Certamente não foi fácil para um homem de militância trotskista romper com o eurocentrismo inerente a certa perspectiva marxista, lamentavelmente dominante no continente. Abelardo Ramos soube tratar com enorme desenvoltura as difíceis exigências do rigoroso método marxiano com a complexa, intrigada e sui generis história da América Latina que em nada repete o “modelo clássico” dominante na cabeça do analista colonizado. Deste talento e capacidade analítica, decorre a maestria com a qual ele revela a extração de classe e os propósitos de cada personagem da vida latino-americana e, em especial, da Argentina. Também por isso, a análise de classe de cada personagem esta devidamente amarrada à trama mundial comandada pela Europa e, mais tarde, pelos Estados Unidos. Um Rivadavia, por exemplo, é pintado como expressão acabada da política e mentalidade sipaia, da mesma forma que Mitre é enquadrado sem a grandeza que a elite portenha ainda o embala. Ambos, mera expressão dos interesses comerciais europeus, responsáveis não somente por nossa balcanização, mas também pelo atraso industrial em relação aos centros metropolitanos. No Brasil, somente Alberto Guerreiro Ramos – de quem Abelardo leu Mito e verdade sobre a revolução brasileira – escreveu sobre os personagens brasileiros com semelhante estilo e precisão, revelando os motivos inconfessáveis a luz do dia que levou a elite erguer estátuas em homenagem a personagens nada dignos.

Nesta magnífica obra, a luta pela independência da América Latina é apresentada magistralmente num quadro onde Bolívar ganha, de maneira merecida, papel central. Cada momento histórico – da extraordinária batalha de Ayacucho ao declínio de seu poder, com a conseqüente completa solidão e impotência do Libertador – é reconstituído com grande precisão, mas também, sem perder-se em detalhes. Não há neste texto o registro do heroísmo aberrante, desnecessário, mas nos inteiramos da importância e o talento da saga bolivariana e seus principais homens: o próprio Bolívar e seu mais fiel seguidor, Sucre. Todos aqueles que se deliciaram na leitura de O general em seu labirinto, de Gabriel García Marquez, ficarão maravilhados com a recuperação dos dias de glória e da completa ruína de nosso mais importante herói latino-americano que, não por esta condição, escapa da sutil crítica. Quando os interesses da elite crioula fundaram a Bolívia – perversa homenagem que somou na balcanização – Abelardo Ramos indica que o mesmíssimo Simón Bolívar terminou por aceitar esta traição a seu projeto unificador, ainda que a independência de Peru e Bolívia representasse também certa oposição aos interesses portenhos ainda mais entreguistas e pró-imperialistas que seus aliados situados em Lima e La Paz. A melancólica confissão de derrota do próprio Bolívar é documentada como uma lição histórica sobre as circunstâncias que levaram um homem dotado de grande talento admitir que realizava um pacto contra sua própria causa.

Ao aproximar-se de seus derradeiros dias em Santa Marta, quando tinha apenas 47 anos de idade e aparentava um sexagenário, Bolívar ainda recebeu a declaração de que era um proscrito na Venezuela e foi declarado por Paez como um “traidor da Pátria” em sua própria terra natal, Carabobo. Glória e miséria. Poder e abandono. A saga bolivariana e nosso futuro escrito em 531 páginas que vaticinam sobre o destino de povos desunidos, de nossa nacionalidade minúscula e das imensas possibilidades da Pátria Grande que ainda teremos que construir ou, tragicamente, perecer.

História da nação latino-americana é também um tratado crítico da diplomacia e das relações internacionais, sem o marasmo e a alienação dos manuais que mutilam a inteligência universitária brasileira. Samuel Pinheiro Guimarães deveria recomendar o livro como leitura obrigatória no Itamaraty, pois se trata de um volume absolutamente necessário para entender a trama histórica que criou conflitos desnecessários e antagonismos absurdos entre países vizinhos, divididos apenas pela falta de consciência de sua história e destino comum, de seu presente miserável e a balcanização que nos condena ao raquitismo na disputa do poder mundial. É também um poderoso antídoto contra o esnobismo de uma diplomacia que apenas começa a descobrir que realmente pertence à Pátria Grande, neste lento – demasiadamente lento, diria – processo de descolonização iniciado pelo valente e lúcido diplomata carioca. Além da utilidade para os diplomatas, História da nação latino-americana presta-se também a leitura do grande público, pois certamente não está proibido ao sindicalista, aos economistas, médicos, jornalistas ou engenheiros vida inteligente; o livro concilia o conhecimento enciclopédico de Abelardo Ramos sobre nossa história com o refinado estilo literário que orienta sua grande obra. Impecável.

Para nós brasileiros, acostumados na arte de espetar nossos grandes personagens em favor de figuras bem menores, porém modernas e simpáticas, Abelardo Ramos nos dá uma pista, um caminho que todos deveríamos trilhar, a partir da identificação da extração de classe de cada personagem histórico, seu projeto político e as razões tanto do êxito quanto do fracasso. A leitura da magna obra de Abelardo Ramos é um antídoto contra o esporte preferido da intelectualidade sipaia, conceito fundamental em sua narrativa, pois explica com precisão o “pelego” nacional tanto no terreno das idéias quanto no dos interesses materiais, aquela mesma figura tratada pelos centro-americanos como “vende-pátria”; enfim, aquele conhecido personagem disposto a vender a nação sem rodeios diante de qualquer possibilidade de ganho imediato e mesquinho.

A relação com o nacionalismo é mesmo um teste definitivo para os marxistas na periferia capitalista; um teste, diga-se, no qual raramente os intelectuais de esquerda exibem suas melhores qualidades teóricas e capacidade política. No Brasil, os marxistas e os nacionalistas representam duas correntes antagonizadas, feitos água e azeite. Quem ganha com isso é a classe dominante brasileira, sempre disposta a assumir a orientação de Washington como expressão de tudo que é moderno e democrático, na linha do conhecido bordão segundo o qual o que é “bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Há, de fato, um batalhão de acadêmicos sipaios, dispostos a dourar a pílula, ávidos por ocupar 15 minutos de fama no competitivo terreno da vassalagem intelectual.

Em conseqüência, o anti-imperialismo da esquerda brasileira também se especializou em apresentar-se como anti-nacionalismo. Nossa esquerda – ao contrário de outros países latino-americanos – submeteu-se docilmente a chantagem da classe dominante, e reluta em adotar uma conduta nacionalista. Submetida a hegemonia burguesa, grande parte da esquerda considera que a orientação nacionalista é, necessariamente, sinônimo de “populismo” e, seja lá o que o conceito possa representar, a conseqüência necessária é a adoção da conduta eurocêntrica simulada como “universalista”. Com esta operação, a esquerda admite seus pecados e repele toda aproximação nacional com as classes subalternas. Na historiografia, terreno fértil para perceber as virtudes da luta nacional, é onde foi mais longe o anti-nacionalismo da esquerda brasileira, ao ponto de que Lula, somente quando se tornou presidente é que reivindicou a herança getulista, anteriormente considerada pelo PT como produto do estado patrimonialista e populista...

Na condição de intelectual com dupla determinação – nacionalista e socialista – Abelardo Ramos consegue dar às grandes figuras políticas de nosso tempo – Bolívar e Sucre ou Perón e Vargas – a exata dimensão de seu necessário resgate, um caminho pelo qual seu marxismo se nacionaliza, se volve argentino e genuinamente latino-americano. Jorge Enea Spilimbergo, a quem conheci em Florianópolis pela mão do editor e amigo Nelson Rolim de Moura, era outra figura que pertencia ao circulo do “Colorado Ramos” nas lidas políticas e no combate teórico que ainda estamos realizando para latino-americanizar o marxismo em nosso continente. Autor de “A questão nacional em Marx”, (Editora Insular, 2002) “Spili” – como era carinhosamente chamado pelos íntimos, é autor de livro precioso e necessário para uma esquerda acostumada a supor que Londres ainda é a terra que possui o maior número de intelectuais marxistas por metro quadrado, como se lá estivesse realmente a fina flor do pensamento de esquerda mundial... O que dizer?! Pois é parte desta turma que estamos começando a conhecer e admirar no Brasil, aproximando não somente o Brasil da Argentina, mas a partir desta relação, entender os caminhos que nos devem levar à construção interrompida da Pátria Grande.

O conceito de “nação-latino-americana” sustenta sua vasta e rica recuperação da memória nacional latino-americana, de tal sorte que Abelardo observa os acontecimentos dos países latino-americanos como se fosse mera história regional, parte da história da nação latino-americana balcanizada em função dos interesses das potencias dominantes e de elites crioulas rapazes. Poderíamos ter algo mais original diante de nossos olhos? Para aqueles que rejeitam a idéia de uma Pátria Grande, sem mesmo dedicar à sua análise alguns minutos, seria oportuno recordar a opinião de Gilberto Freyre, um consentido tanto das letras quanto das elites nacionais. A respeito da presença de Roquete Pinto no Paraguai, Gilberto Freyre escreveu em 1942 que “caminhamos para o dia em que a guerra com o Paraguai será lembrada quase como uma guerra civil – tantas são as afinidades que tendem a nos aproximar.” Ora, se a guerra contra o Paraguai será lembrada como uma guerra civil, então ele obviamente supõem, ainda que inconscientemente, a existência de uma pátria comum, esta mesma que Abelardo Ramos denomina Pátria Grande ou Nação latino-americana e, que, a nós brasileiros, ainda soa como utopia desnecessária ou inconveniente. Contudo, esta advertência de Gilberto Freyre tem sido sistematicamente desconsiderada pelo espírito acadêmico embalado por nossos principais universitários...

Filiado a tradição clássica do marxismo europeu na interpretação do desenvolvimento desigual e combinado – conceito tão caro no marxismo crítico – Abelardo caracteriza nossos países como semi-coloniais, evitando o conceito de dependência ou de subdesenvolvimento. Também por isso, logrou consistente exposição da questão nacional a partir de Marx e de seu contexto histórico, lições ainda completamente desconhecidas para as correntes socialistas brasileiras para quem tudo aparecerá como uma incrível novidade nesta altura da história moderna! Trata-se de uma crítica devastadora ao caráter eurocêntrico que muitas correntes marxianas ainda fortalecem e razão pela qual permanecem cada dia mais afastadas das amplas massas oprimidas e exploradas em nosso país. As limitações de Marx são devidamente recuperadas, contextualizadas e elaboradas com tal vigor que abrem, de fato, uma linha de pesquisa que ainda não foi levada a sério por nossa esquerda. Na mesma linha, o debate no interior da Internacional Comunista também é recuperado e podemos observar a grandeza da atuação política e teórica de Manuel Ugarte exibida nos fóruns onde imperava Lenin e Trotsky.

Afinal, o internacionalismo de Marx sepultou ou abriu o espaço para um debate sério e rigoroso acerca da questão nacional? É tão fecunda a resposta do “Colorado” Ramos que neste livro lançado em 1968 ele escreveu: “A palavra socialismo na América Latina deve se ligar intimamente à ressonância moderna de Bolívar”. É ou não um “visionário”?

História da nação latino-americana é o primeiro livro de Abelardo Ramos traduzido ao português. Não tenho a menor dúvida de seu êxito e tampouco que a ousadia editorial de Nelson Rolim esta abrindo uma nova perspectiva que mais cedo do que tarde será adotado também por outras editoras. Não posso ocultar certo orgulho provinciano pelo fato de que a Insular, de Florianópolis, assuma a vanguarda nacional no terreno da divulgação do que temos de melhor no pensamento latino-americano. O brasileiro está cada dia mais aberto para nossa cultura comum – a cultura latino-americana – razão pela qual tenho completo otimismo sobre o destino do livro e o impacto em nosso país. Eu confesso certa revanche contra meus amigos latino-americanos que, não sem razão, sempre reclamam do descompasso brasileiro em relação ao ritmo das transformações que ocorrem em outros países; na defensiva, eu sempre argumentei que o Brasil se move, mas lentamente. Com seu passo de elefante o país ajudará com vigor este movimento de recuperação do nosso passado comum, nossa identidade e a luta pela Segunda Emancipação, sem a qual estaremos inapelavelmente condenados ao fracasso.

História da Nação Latino-Americana permanecerá entre nós com repetidas edições, marcando época. Recomendo a todos o que disse para minha pequena e adorável Júlia Erêndira: diante de um grande autor, não ajuda muito ler apenas os livros considerados mais importantes ou influentes. É preciso começar logo pela obra completa.

Fonte: IELA -

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